Será que o Destino existe?

9.10.06

Posso fazer-te uma pergunta, Lara? Claro que podes. Então diz-me se esqueceste de vez esse teu amor de adolescente.
- Não, Elly, bem tentei, mas há amores que nunca se esquecem, e embora tivesse casado por amor, acho que o primeiro amor leva sempre algo de nós, talvez o melhor que havia dentro de nós, e deixa sempre marcas que nunca desaparecem. Sabes Elly, a minha vida não foi um mar de rosas, como a maior parte das pessoas pensam, inclusivamente os meus filhos. Eles acham que realmente levei uma vida de princesinha, mas não é verdade.
Como sabes casei muito rica, mas pouco a antes de meu sogro falecer, já quase todos seus negócios tinham ido à falência. Nessa altura fui logo trabalhar para uma pequena fábrica de confecções, que tinha sido deixada pelo meu sogro a meu marido. Chamava-se «Leila Confecções». Aí, dei o melhor de mim e fiz de tudo, desde escolher os modelos a vendedora.
Lembro-me bem da primeira vez que fui vender a colecção. Foi em Lisboa, a um cliente na Praça de Londres. Mal lá cheguei ele disse-me que me tinha enganado no dia da marcação, o que era falso. Fui para a casa de banho chorar e pensando que nada iria dar certo.
Mas depois de conversar com ele , ficamos grandes amigos e a partir daí comecei a sentir-me uma verdadeira vencedora nesta minha primeira experiência..Sempre que me deparava com algum cliente mais renitente ou indeciso, eu própria vestia os modelos e eles lá acabavam por comprar.. Tudo parecia correr bem, quando inesperadamente surge o 25 de Abril que teve graves repercussões no nosso negócio. Começaram a ser exigidos pelas costureiras elevados aumentos de salários, e até chegaram a fechar-me no atelier. Meu marido ficou doente e eu tive que enfrentar tudo sozinha. Falava com as costureiras, tentando convencê-las que se não pagávamos mais , era porque realmente não podíamos. Mas foi tudo em vão, pois acabaram por me penhorar tudo. Numa triste manhã tive que ir ao tribunal de trabalho entregar todas as máquinas. Por ironia do destino as costureiras acompanharam-me oferecendo-me um ramo de rosas, já arrependidas de todas as queixas que haviam feito. Essa manhã ficou bem gravada em mim e ainda hoje a recordo com uma certa mágoa, devido a tanta injustiça.
- Olha Lara também passei por maus bocados devido ao 25 de Abril, pois o meu marido resolveu meter-se na politica , indo a manifestações e deixando-me noites e noites sozinha com meus filhos, ainda pequenos.. Tornou-se assim um pai e um marido sempre ausente..-Pois é Elly, o 25 de Abril foi um dia bem marcante no nosso país, e como em tudo na vida uns lucraram com isso e outros ficaram bastante prejudicados, como foi o meu caso.

21.9.06

Casaste muito jovem com aquele que tu achaste ser o teu príncipe encantado que poderia tornar-te numa princesinha, porém nada disso aconteceu.
«Tens razão, fui logo castrada no meu 1º ano de casada pois a família dele proibiu-me de continuar a estudar na faculdade, alegando que não ficava bem a uma senhora casada ir sozinha para Lisboa ou Coimbra fazer os exames. Foi o meu primeiro desgosto, pois tirar o meu curso era um dos meus sonhos que se tornou irrealizável. Mas enfim eram preconceitos duma época e duma determinada sociedade, que achava que uma mulher não precisava de trabalhar, por isso para que interessaria um curso?
Conformei-me e fui feliz durante alguns anos. Tive 2 filhos que eu adoro e sempre foram o motivo de toda a minha existência. Ao fim de 25 anos divorciei-me chegando à conclusão que toda a minha vida tinha sido uma mentira. Nos últimos anos de casada foi um autêntico desmoronar de ilusões e de um grande sofrimento psicológico.
Fizeste-me muita falta Elly, nesses longos e difíceis anos da minha vida, pois não sei bem porquê estivemos afastadas 20 anos. Como foi possível estarmos tantos anos sem nos vermos, nem nos falarmos? Já sei que me vais responder que foi o destino que nos fez reencontrar depois de toda esta ausência.»
Não. Lara, dessa vez não foi o destino, mas sim o mundo para que tu entraste que se tornou muito diferente do meu. Lembra-te que só casei 3 anos depois de ti, quando até já eras mãe. E reencontra-mo-nos por um mero acaso ao fim de tanto tempo, sentindo uma emoção tão forte e uma amizade tão grande como se nunca nos tivéssemos afastado. Agora sim, foi o destino que nos voltou a juntar, pois tu estavas com um olhar muito triste, visto teres acabado recentemente com o teu casamento. Precisavas de desabafar e eu apareci para te ouvir e animar.
«Pois é Elly também notei uma certa sombra no teu olhar e perguntei-te se eras feliz. E ainda me recordo bem de me teres respondido: Achas que a felicidade existe? Ninguém é totalmente feliz, a vida é cheia de amores, desamores, encontros e desencontros.
« É verdade Elly, encontramos muitas vezes quem não desejamos e desencontramos quem amamos».

18.9.06

Continuação ...

"Bons tempos Lara esses que passamos juntas no colégio, a partir daí nossas vidas começaram a levar rumos diferentes."
Na época de sessenta resolvi ir para Inglaterra para conhecer novas culturas e aperfeiçoar a língua Inglesa, pois o meu objectivo nessa altura era o ensino. Sempre fui pragmática e talvez o teu mal Lara fosse teres sido sempre uma sonhadora romântica, esquecendo-te muitas de ti própria.
«Cala-te Elly não digas disparates, também com 19 anos fui para Cambridge, mas talvez tenhas razão, pois o objectivo dessa minha ida foi esquecer o meu primeiro amor».
Pois. Lara esse foi o grande erro da tua vida, pois foste lutar contra o tal destino que dizes não acreditar.
«Mas em contra partida fez-me bem a estadia no colégio de Cambridge. Ainda me lembro que se chegássemos atrasados para as refeições éramos castigados; ou tínhamos que descascar batatas ou arrumar a cozinha.
Nos maravilhosos jardins da cidade vi pela primeira vez pares de namorados beijando-se na boca e quase fazendo amor. Também pude observar os primeiros hippies, os célebres impulsionadores dos anos sessenta.
Esta viagem tornou-me mais mulher, mais responsável, pois nunca me tinha afastado de meus Pais e meu País. Quando regressei fui para Lisboa para tirar o curso de Filologia Germânica, pois nessa época no Porto, minha cidade natal, não havia a Faculdade de Letras. Foi um dos melhores anos da minha vida, apenas ensombrado pelas saudades que tinha de meus Pais.
Adorava andar na faculdade, pois sabia que estava a começar a construir o meu futuro profissional.»
Sabes Lara se analisarmos os teus 60 anos de vida, verás que várias vezes o destino teve interferência em tantos reveses que tiveste e em tantos sonhos que não realizaste.

17.9.06

I CAPÍTULO

Há amores que nunca se esquecem totalmente, mas uma verdadeira amizade, essa sim, dura uma vida inteira.
Numa amena tarde de Setembro, já no crepúsculo da vida, duas amigas conversam olhando o mar.
«Será que o Destino existe?» interroga Elly, enquanto Lara com o olhar perdido no horizonte, lhe responde: «minha querida, o Destino somos nós que o vamos fazendo ao longo duma vida. Eu, por exemplo, tive uma infância maravilhosa, ainda me lembro da minha cadelinha, a Katia, a quem eu vestia minhas roupas, e da minha avó me ralhando, com os óculos na ponta do nariz e dizendo: "Lara não cortes as flores." Era um fraquinho que eu tinha por flores e que ainda hoje continua bem latente em mim. A minha adolescência foi muito feliz, tive os melhores Pais do Mundo e aos catorze anos conheci aquele que seria o meu primeiro amor. Com ele aprendi a beijar, amar, a ter os primeiros desejos, sonhos e ilusões. Mas …passados cinco anos tudo acabou, sem sabermos bem porquê. Teria sido o Destino? Claro que não, acabou porque tudo na vida tem um começo, um meio e um fim e porque ainda éramos praticamente umas crianças e deixamos que o orgulho se sobrepusesse a a todo aquele puro e sincero amor.
Elly retorquiu «minha amiga, por muito que digas não me convences. Claro que o Destino existe e somos nós próprios que determinamos, sem querer, que ele mude nossas vidas. Como sabes tive uma infância normal, nunca passei privações mas também não tinha o Mundo a meus pés. Nunca tive um jardim para brincar, nem um cãozinho, e fui feliz.
Sabes chego a ter saudades dos nossos tempos do colégio. Lembras-te da D.Elvira quando no Verão nos apalpava as pernas para se certificar de que não estávamos sem meias?
« Se me lembro!!!!! E também era proibido ir de calças compridas. Que ridículo!!!! E quando mandamos dizer uma missa por alma do James Dean e depois ficamos todas de castigo?
Sabes Elly hoje interrogo-me muitas vezes como é que nós conseguíamos ser felizes sem MacDonalds, sem Pizza Hut, sem computadores, sem telemóveis, sem coca cola, sem DVDs, praticamente para nossa distracção só tínhamos cinema, rádio e discos de vinil. Mas o que é certo é que talvez tivéssemos sido mais felizes que muitos jovens de hoje, pois a palavra droga nem existiam em nosso vocabulário.